É bastante comum ver nos fóruns e sites de discussão sobre aquarismo alguns aquaristas iniciantes ficarem extremamente aborrecidos quando lhes é dito que seus aquários comunitários estão com os peixes totalmente incompatíveis entre si e que não “combinam” com o tipo de aquário que foi montado, e que a fauna deve ser repensada e refeita. Alguns aceitam estes comentários e, após algumas observações, percebem que realmente estão fazendo a coisa errada e mudam suas montagens, já outros, preferem ignorar as recomendações e teimam em continuar com o aquário como uma verdadeira “salada” e se aborrecem desnecessariamente, e em alguns casos mesmo que insistam em suas “teorias” após apenas alguns dias ou semanas já percebem que os resultados não são os esperados, e alguns até mesmo desistem do hobby por causa disso. Tentaremos discutir sobre isso neste pequeno texto.
Obs.: o texto foi propositalmente escrito em linguagem o mais simples possível, para que não cause dificuldades no entendimento do objetivo do mesmo. Não adianta encher a cabeça de aquaristas iniciantes com conceitos complicados, fórmulas e equações que não vão fazer nada além de lhes confundir ainda mais. Isto pode ser ensinado mais tarde.
Primeiramente, alguns conceitos básicos:
Habitat
Habitat (do latim: “ele habita”) é um conceito usado em Ecologia que inclui o espaço físico e os fatores abióticos que condicionam um ecossistema e por essa via determinam a distribuição das populações de determinada comunidade. O conceito de habitat é em geral usado em referência a uma ou mais espécies no sentido de estabelecer os locais e as condições ambientais onde o estabelecimento de populações desses organismos é viável (por exemplo, o habitat da truta são os cursos de água bem oxigenados e com baixa salinidade das zonas temperadas). (fonte: Wikipedia)
Ecossistema
Ecossistema (grego: oykos, casa + σύστημα, sistema onde se vive) designa o conjunto formado por todas as comunidades que vivem e interagem em determinada região e pelos fatores abióticos que atuam sobre essas comunidades (1). Consideram-se como fatores bióticos os efeitos das diversas populações de animais, plantas e bactérias umas com as outras e fatores abióticos os fatores externos como a água, o sol, o solo, o gelo, o vento. Em um determinado local, seja uma vegetação de cerrado, mata ciliar, caatinga, mata atlântica ou floresta amazônica, por exemplo, a todas as relações dos organismos entre si e com seu meio ambiente chamamos ecossistema. Ou seja, podemos definir ecossistema como sendo um conjunto de comunidades interagindo entre si e agindo sobre e/ou sofrendo a ação dos fatores abióticos. (fonte: Wikipedia)
Biótopo
Em Ecologia, um biótopo ou ecótopo (do grego: βιος – bios = vida + τόπoς = lugar, ou seja, lugar onde se encontra vida) é uma região que apresenta regularidade nas condições ambientais e nas populações animais e vegetais.(2) Corresponde à menor parcela de um habitat que é possível discernir geograficamente.
Para viver, a biocenose ou biota depende de fatores físicos e químicos do meio ambiente. No exemplo duma floresta, o biótopo é a área que contém um tipo de solo (com quantidades típicas de minerais e água) e é afetada por um determinado clima (umidade, temperatura, grau de luminosidade e outros fatores). Os fatores abióticos dum biótopo afetam diretamente a biocenose, e também são por ela influenciados. O desenvolvimento de uma floresta, por exemplo, modifica a umidade do ar e a temperatura de uma região. (fonte: Wikipedia)
Biota ou Biocenose
Biocenose, biota ou comunidade biológica é a associação de comunidades que habitam um biótopo. O termo “biocenose” (do grego: bios, vida, e koinos, comum, público) foi criado pelo zoólogo alemão K.A. Möbius, em 1877, para ressaltar a relação de vida em comum dos seres que habitam determinada região. A biocenose de uma floresta, por exemplo, compõe-se de populações de arbustos, árvores, pássaros, formigas, microorganismos, etc., que convivem e se inter-relacionam. (fonte: Wikipedia)
Bioma
Em Ecologia, chama-se bioma a um conjunto de ecossistemas. Mais além, biomas são um conjunto de diferentes ecossistemas. O bioma são as comunidades biológicas, ou seja, as populações de organismos da fauna e da flora interagindo entre si e interagindo também com o ambiente físico chamado biótopo. (fonte: Wikipedia)
O que isto tudo tem a ver com os aquários?
Você provavelmente já foi a um zoológico. E já deve ter notado que os leões não vivem no mesmo recinto que as zebras. Ou que os ursos polares não vivem junto das focas ou das girafas. Isto tem um motivo específico de ser assim, cada espécie de ser vivo tem seu próprio habitat e este ser vivo através de milhões de anos foi “ajustado” para viver nele, aproveitando-se dos recursos disponíveis naquele ambiente. O mesmo aconteceu com seus peixes.
O argumento mais oferecido pelos aquaristas que fazem essas misturas é de que “tem um amigo que tem um aquário assim há anos” ou “os peixes parecem bem”. Mas veja que no parágrafo anterior falamos sobre as adaptações sofridas pelas espécies… que levaram MILHÕES de anos para acontecer. Os organismos dos peixes foram adaptados para viver e conviver com uma determinada condição de água, alimentação, temperatura durante milhões de anos… e não é em meia hora de “aclimatação” ao seu aquário comunitário que isso irá mudar. Vamos a alguns dos principais parâmetros importantes na montagem desses “aquários-salada”, que são normalmente ignorados:
Alimentação
Em relação à alimentação, podemos até dizer que conseguimos “enganar” a natureza em alguns casos, pois alguns peixes criados em cativeiro se alimentam de rações industrializadas. Mas há casos em que os peixes são capturados em seu habitat, e simplesmente não se alimentam dessas rações. E além disso, algumas espécies são predadores naturais de outras (exemplo comum: discus selvagens com neons). Criá-las juntas é certamente um problema. E ainda há o problema da incompatibilidade entre tipos de alimentação, como por exemplo no caso dos ciclídeos do lago Malawi que são estritamente herbívoros. Misturá-los a peixes carnívoros e alimentá-los com a mesma dieta destes causa sérios problemas, pois esses peixes não têm um sistema digestivo capaz de digerir as proteínas de origem animal, causando doenças como o temido “Malawi Bloat”. Algumas espécies tiveram ao longo desses milhões de anos evoluções em seus organismos que os fizeram mais propícios a se alimentar de determinados tipos de alimentos encontrados mais fartamente no local em que vivem, como por exemplo o desenvolvimento de dentição especializada para se alimentar de algas presas em rochas, etc. E isto não pode ser mudado de uma hora para outra.
Condições da água
Os parâmetros físico-químicos da água influenciam diretamente na manutenção de várias espécies de animais e plantas em aquários. A alteração deles causa mudanças no equilíbrio osmótico, metabólico e fisiológico dos organismos que nela vivem, causando sérios danos à saúde dos mesmos, levando inclusive à morte.
Em relação às condições da água, são vários fatores que podem ser um problema. O pH e a dureza são fatores frequentemente ignorados pelos aquaristas mais inexperientes. Sem entrar em detalhes, podemos fazer uma analogia com os humanos. Imagine-se vivendo num ambiente com pouco oxigênio. Você irá morrer imediatamente? Não necessariamente, mas certamente suas condições de vida não seriam as ideais. Alguns indivíduos tolerariam essas baixas concentrações de oxigênio melhor que outros, mas alguns sofreriam bem mais. Imagine também quem vive num ambiente poluído. Será que o tempo de vida dessas pessoas é o mesmo nessas condições? Será que a incidência de determinados tipos de doenças nessas pessoas não seria bem maior que outras que vivem em ambientes mais adequados?
Essas substâncias que estão presentes na água dos aquários e que são responsáveis pela dureza, pH, etc. poderiam ser comparadas a esse “oxigênio” dessa situação dos humanos, e os compostos nitrogenados (como a amônia) podem ser comparados à poluição. O desequilíbrio de um ou mais desses compostos no habitat em que vivem provocaria em alguns reações extremas, os organismos deles não estariam preparados para lidar com essas variações. Esses desequilíbrios fatalmente causam também um stress elevado nos animais, com impacto na sua imunidade e consequentemente queda na resistência a doenças, por exemplo. E isto tudo teria pelo menos consequências principalmente a longo prazo, e é aí que os aquaristas inexperientes se enganam e acham que vai “tudo bem” nas primeiras semanas, e se espantam quando começam a ocorrer as primeiras mortes “misteriosas” e “inexplicáveis” em alguns dias. Um peixe criado numa água cuja dureza ou pH não é adequado à fisiologia de seu organismo não terá condições de lidar com isso por muito tempo.
Temperatura
Os peixes são animais pecilotérmicos, ou seja, sua temperatura corporal varia de acordo com a do ambiente que os rodeia e eles não possuem mecanismos para regular esta temperatura corporal. Existem animais que são de regiões frias, portanto seu organismo é adaptado para funcionar nessas condições, inclusive com diferenças grandes em relação ao seu metabolismo, por exemplo. Colocá-los em águas mais quentes vai causar um belo transtorno em seu organismo. Mesma coisa para animais que vivem em regiões quentes.
Estrutura física do aquário
Alguns peixes requerem tipos de aquários totalmente diferentes de outros, com relação ao tamanho e formato dos mesmos e a outros detalhes como elementos de decoração, substrato e plantas (presença ou ausência dos mesmos). Sem entrar em detalhes específicos, alguns peixes precisam de aquários mais compridos do que outros, pois precisam de mais espaço para nadar. Outros precisam de uma litragem grande. Outros podem viver em aquários menores. Alguns precisam de correnteza forte, outros não. Outros precisam de aquários com pouca luz. Alguns vivem em aquários com plantas e não as molestam, outros as devoram e arrancam. Outros precisam de um substrato de areia, de tocas… e assim por diante. E mais, ainda se divulga bastante por aí a “lenda” de que peixe cresce de acordo com o tamanho do aquário. Isto não é verdade. Um humano que more por exemplo a vida toda numa casa de bonecas, não vai deixar de crescer por isso. Mesma coisa acontece com os peixes, eles sempre atingem o tamanho final de sua espécie quando adultos, principalmente quando mantidos em condições ideais, mesmo em aquários. Pense nisso antes de comprar aquele filhotinho de Oscar de 3cm, lindinho e inofensivo. Ele vai ficar lá com seus 30cm fácil, fácil.
Compatibilidade entre espécies
Como foi citado mais pra cima neste texto, num zoológico você não vê leões junto com zebras nem ursos polares junto com focas. Por quê? Porque, neste caso, um é simplesmente a refeição preferida do outro. Colocar peixes carnívoros junto com peixinhos pequenos e brilhantes e esperar que nada aconteça é querer um milagre. Os peixes são animais irracionais e funcionam por instinto. Não há como “ensinar” nenhum deles de que não devem comer seus neons.
Em outras situações há também o problema da agressividade/passividade de algumas espécies, e espécies com “temperamentos” (melhor dizer “comportamentos e hábitos”) diferentes neste sentido não devem ser colocados juntos. Algumas espécies de ciclídeos defendem suas tocas e proles com muita ferocidade, e colocar estes peixes juntos com peixes muito “curiosos” (termo usado livremente, já que peixes não têm esses comportamentos por “vontade própria” digamos assim) que irão querer investigar alguma coisa nessas tocas pode causar problemas a estes. Peixes mais tímidos e lentos podem ficar sem chance de comer adequadamente quando criados juntos a peixes mais vorazes e rápidos. Peixes em época de reprodução também mudam seu comportamento, alguns ficam extremamente agressivos, inclusive com membros da própria espécie, imagine então com outros peixes que eventualmente tentam atrapalhar seus rituais de desova tentando por exemplo comer seus ovos.
Estes são alguns dos fundamentos básicos sobre os motivos pelos quais deve-se pesquisar sobre os hábitos e parâmetros requeridos para os diversos tipos de aquários e espécies antes de se montar um aquário e escolher a fauna que irá habitá-lo. É bastante tentador montar um aquário novo em folha, com equipamentos “top” e ver tantas espécies diferentes e não saber quais devemos colocar no nosso novo aquário, e a tentação de colocar todas é muito grande. Mas é preciso antes de tudo uma boa pesquisa a respeito, para que um hobby tão cativante como o aquarismo não se transforme numa frustração futura, por uma simples questão de falta de planejamento adequado. Existem várias combinações possíveis de espécies, vários biótopos relativamente fáceis de se reproduzir (se não fielmente, pelo menos parcialmente), e não há necessidade de se transformar seu aquário num “aquário salada”. Seus peixes agradecerão no futuro, brindando-lhe com novas gerações e desenvolvimento invejável. Basta ter um dos requisitos básicos para se ser um bom aquarista: paciência.
Referências:
1.“Ecologia: Ecossistema e Cadeia Alimentar”, no site do Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo, Brasil
2.“O que é biótopo” no site biotopobrasil.com.br
Fonte: http://www.ciclideosonline.com/artigos/salada.htm
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